Ao telefone com o presidente da Câmara, a felicidade de "André" – nome fictício – testemunha a certeza de que o jovem vê um futuro de oportunidades semelhantes ao de qualquer outra pessoa, sem olhar a privilégios de retaguarda. Hoje com 26 anos, é um dos muitos rapazes, integrados em respostas sociais, que agarraram as ferramentas criadas por uma sinergia entre a Câmara do Porto e o Instituto Profissional do Terço (IPT). A autarquia disponibilizou a casa, a instituição o acompanhamento e aos jovens só se lhes pede que não deixem de crescer.
Pedro Duarte esteve, na manhã desta sexta-feira, no Bairro Fernão de Magalhães, na residência "Delfim de Lima", casa do jovem, que não quis faltar ao trabalho para o receber, mas deixou a porta aberta para que o presidente da Câmara pudesse conhecer a habitação que a Domus Social cedeu ao IPT para albergar uma resposta de autonomização de jovens que, por diferentes razões, não têm possibilidade de regressar às suas famílias.

A ideia, explica o provedor do Instituto, surgiu em consequência de um vazio deixado pelos "Apartamentos de Autonomização", os primeiros do país, que o IPT criou, em 2007, com o apoio da Segurança Social (SS), para jovens que, chegados os 18 anos, "tinham de sair e da instituição e não tinham para onde ir".
"Podiam estar ali dos 18 aos 21 anos e ali aprendiam as competências básicas das tarefas de casa, a fazer contactos com a Câmara e a Junta de Freguesia, a abrir uma conta num banco, gerir um orçamento", explica José Manuel Cadão Formosinho.
"Até a eles próprios lhes custava a crer que fosse possível fazer as suas licenciaturas"
O entusiasmo e a possibilidade de continuar a sonhar ainda com mais futuro, levou muitos destes rapazes, vindos "de famílias desestruturadas ou pobres, que nem os acompanham", a querer ir para lá do 12.º ano, até mesmo a entrar na universidade.
"Precisavam de se integrar no mercado de trabalho e chegar a um salário que lhes permitisse romper com ciclos de pobreza", afirma o provedor, referindo, no entanto, que a imposição da SS, na altura, de uma idade máxima para viver nos "Apartamentos de Autonomização" criou uma dificuldade e um receio de que "o trabalho feito com estes jovens se perdesse".

E aqui entrou o papel do poder público: através da Domus Social, "surgiu esta solução de residência partilhada, num apartamento num bairro de habitação municipal".
Mas a sinergia alargou-se e o IPT, além de utilizar recursos para financiar os estudos superiores, fez, também, “protocolos com algumas empresas" para que estes jovens conseguissem "um posto de trabalho protegido".
Uma prova de que a comunidade pode fazer a diferença. "Até a eles próprios lhes custava a crer que fosse possível fazer as suas licenciaturas", admite Cadão Formosinho, e, com isso, "conseguirem arranjar ferramentas que lhes permitiam competir melhor no mercado de trabalho".
"É muito importante que haja sinergias entre as instituições para podermos viver numa cidade em que há um espírito de entreajuda, solidário, em que todos lutamos para haver mais coesão social"
Enaltecendo a parceria criada entre o Instituto Profissional do Terço e o Município do Porto, o presidente da Câmara reconhece que "para encontrarmos respostas [para as vulnerabilidades e dificuldades inerentes ao contexto socioeconómico em que um conjunto significativo da nossa população vive], há um papel que o poder público tem que fazer, inevitavelmente, mas também temos noção que há limitações".
Por isso, Pedro Duarte considera "muito importante que haja sinergias entre as instituições, que têm tido capacidade de, com o apoio público, terem iniciativas próprias e serem criativas em respostas e soluções, diferentes do habitual, para podermos viver numa cidade em que há um espírito de entreajuda, solidário, em que todos lutamos para haver mais coesão social".

O programa Incentivo, considera, "é um bom exemplo porque apoia muitos jovens num momento da vida importante em que, se não houver este tipo de apoios, provavelmente não têm acesso às mesmas oportunidades que outros com mais condições".
Por isso, o presidente da Câmara admite, não apenas reforçar a disponibilização de serviços da autarquia para fazer proliferar respostas semelhantes, como "aproveitar o edificado que temos para esse efeito", trazendo "casas devolutas para a resposta pública em circunstâncias como esta".
Neste momento, o Município do Porto tem já cinco apartamentos afetos a esta resposta, distribuídos por instituições com trabalho reconhecido no terreno.
"Não basta acolher e matar a fome"
Esta casa, no Bonfim, tem capacidade para três moradores, mas pelas habitações geridas pelo IPT já passaram 42 nos últimos anos, num período de transição segura e estruturada para a vida adulta, numa verdadeira experiência de vivência autónoma em contexto urbano.
"São jovens com problemas, todos a ser acompanhados por pedopsiquiatras porque foram maltratados, abusados, até pelos pais", reforça o provedor do IPT, lembrando que "há muitas situações que não vêm nos jornais".
Nas palavras de José Manuel Cadão Formosinho, as pessoas que passaram por situações destas "não basta acolher e matar a fome. É preciso apoiá-las e levá-las o mais longe possível, para que nunca se sintam desorientadas”. São precisos os afetos. E tudo começa com um teto.